Reflexos do manifesto “Pela Escola Pública” no Educare

1.º ciclo, o mais flagelado 

Duílio Coelho, o único professor primário do grupo, e autor do blogue Primeiro Ciclo, faz suas as palavras de José Manuel Alho, quando diz que “o 1.º ciclo do ensino básico persiste como o nível de ensino mais flagelado com toda a sorte de experiências tragicamente camufladas de inovações”.

Um professor ou vários? Parece ser a eterna questão que permanece por resolver no 1.º ciclo do sistema educativo. “Passou-se de uma situação de progressiva saída da monodocência, para uma reentrada na monodocência (exceção ao Inglês no 3.º e 4.º anos), com o correspondente apoio à interdisciplinaridade”, exemplifica o blogger, referindo, por outro lado, que “alguns professores no 1.º ciclo com habilitação para lecionar Inglês são impedidos de o fazer na sua turma”.

Acréscimo de horas letivas, 400 minutos por semana a mais do que nos restantes ciclos, e “o silêncio geral, perante a passagem de uma compensação justa das horas letivas em excesso, para dois anos de pausa letiva facultativos, a meio da carreira docente”, metas de aprendizagem desfasadas em relação à faixa etária, são alguns dos motivos pelos quais importa sair em defesa da escola pública.  Para resolver um outro dilema “da democracia”, como intitula Duílio Coelho: “A falta de debate de ideias, com a maioria dos professores a não ousar contrariar as decisões.”

Um aluno de 6 anos passa mais 465 minutos por semana na escola que um aluno de 18 anos…

Estou naturalmente a fazer uma comparação entre o 1º ano de escolaridade e o 12º ano… Muito se tem falado na elevada carga letiva dos alunos, muito se tem falado na escola a tempo inteiro, muito se tem falado nos trabalhos de casa e muito se tem falado nas atividades extracurriculares.  […]

A carga letiva atribuída aos alunos portugueses não tem a mínima consideração pela sua idade, não tem uma lógica progressiva, sendo vítima de múltiplos interesses exceto os dos próprios alunos. […]

Este é um assunto que sinceramente me revolta pois acho isto tão básico, tão acessível, tão… tão… tão senso comum… que é incompreensível, que nenhum licenciado, mestre, doutor, professor doutor, seja incapaz de mudar o que tanta gente da comunidade educativa vem apelando há anos.[…]

Não me reconheço neste ensino que visa a quantidade e não a qualidade, não me reconheço nesta escola formatada, inflexível e praticamente sem autonomia, não me reconheço num ensino que centra a formação dos alunos no Português e na Matemática, e não me reconheço numa sociedade que quer tornar a escola a 1ª casa dos alunos.[…]

As sombras…Luis Costa

primeiro ciclo

[…]Sombras – São  um faz de conta, um jogo de espelhos, um teatro de sombras… uma mó de do granito a transformar paciência e inteligência em pó de submissão. Já (quase) ninguém diz o que realmente pensa, já (quase) ninguém discorda, já (quase) ninguém sabe dizer “não”. Já (quase) ninguém é capaz de dizer que o rei vai nu, mesmo que todos os olhos o vejam pudibundamente exposto. Se uma boca fala… a sala cala… até que o ruído rebarbativo seja engolido pela insonora solidão. Desolação sobre desolação, pirâmides de pedra e negação.[…]

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Opinião – Maria Laranjinho

 O 1º ciclo bateu no fundo com a indiferença de quase todos, inclusive dos sindicatos. Verdade seja dita que este ciclo nunca fez parte da agenda de negociações, na medida em que todas as mudanças foram acontecendo paulatinamente, e aceites no meio de uma “rabugice silenciosa” da parte dos docentes deste nível de ensino. Os sindicatos sempre que iam a reuniões levavam muitos assuntos para debater, mas não do 1º ciclo. Poucos docentes ou nenhuns tem a carga horária, os vários níveis de anos de escolaridade ou níveis de aprendizagem que tem uma sala de 1º ciclo. Já para não falar dos alunos com NEE misturados com mais de um ano de escolaridade, chegando a haver 5 e 6 alunos com esta especificidade, por turma entregues a maior parte do tempo à responsabilidade do professor titular. Isto deve-se às poucas horas de apoio especializado que estes alunos tem, para que possam poupar dinheiro e não colocar mais professores. As AEC são a cereja no topo do bolo. Se há escolas que conseguem terminar as aulas curriculares às 16h, e só iniciar as AEC às 16h 30, uma grande parte não o faz porque as câmaras querem poupar dinheiro, e então numa promiscuidade inaceitável misturam um pouco de tudo, arrastando para o final do dia as atividades letivas. Com a introdução do inglês, as coisas ainda pioraram mais, com furos pelo meio, para o professor titular concluindo as atividades 4 dias por semana, às 17h 30m. É aberrante toda a situação. Talvez se resolvesse se houvesse maior solidariedade de classe, e os professores dissessem basta, até serem ouvidos. microfone