Crónica de uma professora com o 1º ano – Ana Rodrigues Martins

A criança entra para o 1 CEB. Chora um bocadinho. Quer brincar. Tem saudades da mãe. Tem saudades do pai. Chora quando é preciso trabalhar um bocadinho. Anima-se quando não é preciso trabalhar um bocadinho.

As aprendizagens vão sendo mais exigentes e a criança não as acompanha. Chora mais um bocadinho. Os professores inventam estratégias. Douram a pílula um nadinha. Tentam que o trabalho seja tão apelativo quanto a play station da criança. Fazem de mãe para o choro parar. Esmifram umas horinhas à professora do Apoio.
A criança diz que o P é um A. Os professores falam com a família. Que talvez uma consulta de oftalmologia. Se calhar, só para confirmar que nada é além de imaturidade, uma consulta de desenvolvimento.
As aprendizagens ficam um bocadinho mais exigentes. A criança chora porque vêm aí as fichas de avaliação. Os professores desdramatizam. As fichas são feitas pelos mínimos possíveis. A criança chora. Não faz um risco sem os professores ao lado.
A criança vem de manhã para a escola mas como chora a família leva-a para trás.
Os professores fazem relatórios.
A criança continua com saudades da mãe.
Fica na escola e chora.
Os professores dizem vamos lá hoje então descobrir aqui um novo som, e a criança chora. E os professores desdramatizam, dizem que o som é fácil. E a criança puxa o vómito. E as estereotipias que sempre apresentou vão ficando mais acentuadas.
E os professores desabafam com os colegas, não tarda nada está aí a família inteira a dizer que mordemos na criança.
E nunca se enganam, os professores. Essa cáfila de bandidos que não fazem mais nada do que fazer as crianças infelizes.

Ana Rodrigues Martins