Crónica de uma professora com o 1º ano – Ana Rodrigues Martins

A criança entra para o 1 CEB. Chora um bocadinho. Quer brincar. Tem saudades da mãe. Tem saudades do pai. Chora quando é preciso trabalhar um bocadinho. Anima-se quando não é preciso trabalhar um bocadinho.

As aprendizagens vão sendo mais exigentes e a criança não as acompanha. Chora mais um bocadinho. Os professores inventam estratégias. Douram a pílula um nadinha. Tentam que o trabalho seja tão apelativo quanto a play station da criança. Fazem de mãe para o choro parar. Esmifram umas horinhas à professora do Apoio.
A criança diz que o P é um A. Os professores falam com a família. Que talvez uma consulta de oftalmologia. Se calhar, só para confirmar que nada é além de imaturidade, uma consulta de desenvolvimento.
As aprendizagens ficam um bocadinho mais exigentes. A criança chora porque vêm aí as fichas de avaliação. Os professores desdramatizam. As fichas são feitas pelos mínimos possíveis. A criança chora. Não faz um risco sem os professores ao lado.
A criança vem de manhã para a escola mas como chora a família leva-a para trás.
Os professores fazem relatórios.
A criança continua com saudades da mãe.
Fica na escola e chora.
Os professores dizem vamos lá hoje então descobrir aqui um novo som, e a criança chora. E os professores desdramatizam, dizem que o som é fácil. E a criança puxa o vómito. E as estereotipias que sempre apresentou vão ficando mais acentuadas.
E os professores desabafam com os colegas, não tarda nada está aí a família inteira a dizer que mordemos na criança.
E nunca se enganam, os professores. Essa cáfila de bandidos que não fazem mais nada do que fazer as crianças infelizes.

Ana Rodrigues Martins

Desabafo de uma professora farta de isto tudo

Podíamos parar um país., mas como não somos unidos brincam connosco. Era só deixar os alunos em casa em inícios de ano letivo ou períodos escolares, por alguns dias.
Viu-se agora na última greve, sinto-me tão revoltada com o gozo que tem sido a minha carreira, com 53 anos no 6.º escalão e sem perspetivas de subir ao 7.º.

Já tive todos os cargos, coordenações, gestão, titular, de nada me valeu. O meu curso no magistério era equivalente a bacharelato, então fiz mais dois anos na universidade, todos os dias das 17h às 22h, de segunda a sexta, em pós-laboral, um sacrifício enorme. Ou seja, tenho uma licenciatura de 5 anos. Tudo isto para um dia me reformar num escalão mais alto. Fui defraudada. De nada me valeu, abençoadas as que não se chatearam com isso. Bailei sempre com a mais feia, vi as minhas colegas monodocentes reformarem-se na minha idade, vejo os outros colegas, de outros ciclos, com tardes ou dias livres. Com os monodocentes dão-nos um ano sem turma, em que os docentes que aceitam são despejados nos apoios educativos. Não obrigado!

Vejo o futuro negro e sinceramente estou farta. Decidi este ano demitir-me do cargo de coordenadora de departamento, cargo que quase sempre tenho ocupado, agora outras que o assumam, pois, a tutela nunca valorizou nem pagou devidamente a quem tem turma e ainda cargos. Chega. para mim e está na altura de distribuir a carga e deixar de ser otária para quem não merece o nosso esforço. Ganho o mesmo.
Na última greve, fiz os quatro dias, vou comer muita açorda com o enorme desconto no vencimento, mas fiz esse sacrifício e farei todas as lutas futuras. Pelo menos fico melhor com a minha consciência. Isto, se as lutas existirem, pois, os sindicatos andam brandos. Os meus colegas, na sua maioria, estão contentes com a tutela, o povo é sereno, eu é que já não vou em conversas.

Este governo tem sido uma deceção, também em matéria de educação. Espero que se reflita nas próximas eleições.

Ana Reis

sem nome

Avaliação e Flexibilização

A medição do sucesso como ficção acontece, quando nos é imposto um modelo de avaliação, quando nos ordenam um fechar de olhos às insuficiências dos alunos, quando o programa é desadaptado à capacidade média dos alunos.

Ao começar a flexibilização pelos primeiros ano de cada ciclo, o governo fica com poucos instrumentos para avaliar o impacto que terá nos anos seguintes. No primeiro ano do primeiro ciclo pouco se decide do que será a real capacidade do aluno no futuro. No entanto, um aluno que termina o 1ºano lendo e interpretando o que lê com um vocabulário desenvolvido para a idade, parte com alguma vantagem para um 2ºano muito mais exigente, sobretudo na matemática.

Seria no final do próximo ano letivo com a execução das provas de aferição, aos alunos que tiveram a experiência da flexibilização que se poderia aferir as virtualidades do modelo. Espero que o ME continue tão cauteloso como tem sido até agora, e não avance para um modelo, que está longe de já ter dado provas de sucesso.

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Por desgaste físico e psicológico. Parlamento rejeita criação de regimes específicos de aposentação para professores

O parlamento rejeitou hoje projetos de resolução do PCP, CDS-PP e PEV para a criação de um regime de aposentação específico para a carreira dos professores e educadores de infância, sublinhando o desgaste físico e psicológico da profissão.

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E a reabilitação do regime especial para os monodocentes? Isso é que era!

Veja a votação

Aquilo da Cimeira no CCB — O Meu Quintal

Na primeira notícia sobre a grande, enorme, incomensurável, Cimeira que debate hoje a carreira docente no CCB, anoto com alguma estranheza a mistura entre as declarações do especialista Schleicher e as de António Nóvoa, apresentadas como feitas “à margem da Cimeira”. Já dentro da cimeira, parece que a norma foi a do discurso redondo, sem […]

E o que dizer deste tipo de “compromisso”:

No ano passado, em Edimburgo (Escócia), quando aceitou o convite para organizar a edição de 2018, a equipa ministerial portuguesa concordou em olhar para as condições de trabalho dos professores e em tornar a carreira docente mais atrativa. O processo está longe de pacífico: o reposicionamento na carreira uniu todos os sindicatos contra o Governo em greves que as organizações ameaçam repetir.

Olhou e nada fez.

Profissionalmente, os professores são desvalorizados…

via Aquilo da Cimeira no CCB — O Meu Quintal

Também subscrevo

Desde o início do século XXI, têm surgido novas tendências de “administração” dos professores, cruzando três lógicas distintas.

A primeira é o reforço de dispositivos de avaliação, acentuando não os processos de desenvolvimento profissional, mas o estabelecimento de hierarquias dentro do professorado. Num contexto marcado pela omnipresença de indicadores internacionais, estes dispositivos tendem a evoluir para uma remuneração ou premiação dos professores em função dos resultados escolares dos alunos.

A segunda é a intensificação do trabalho dos professores, que vem atingindo níveis impensáveis, seja por via de uma escola transbordante, que quer fazer tudo, seja por via de uma burocratização crescente da vida escolar e docente.

A terceira é a inflação de materiais didácticos e pedagógicos, impressos ou digitais, que se destinam a “facilitar” a acção docente, mas que representam uma diminuição da autonomia dos professores e do seu trabalho profissional.

Ainda que por vias diferentes, todas estas políticas têm consequências nefastas na vida dos professores. Mais do que nunca, é necessário reforçar a profissionalidade docente, através de dinâmicas colaborativas e de uma maior participação dos professores na vida das escolas e nas políticas públicas de educação. (O Tempo dos Professores, pp. 1134) Sampaio da Nóvoa

via Subscrevo

Parlamento vai integrar a Educação Física na média de acesso ao Superior — ComRegras

Depois de muitas promessas e de atrasos constantes, o Parlamento está prestes a fazer aquilo que devia ter sido feito pelo Ministério da Educação. É inevitável, o Ministério da Educação fica mal na fotografia e não se percebe que questões educativas sejam decididas fora do Ministério da Educação. Quando se tem um Ministro fraco, que…

via Parlamento vai integrar a Educação Física na média de acesso ao Superior — ComRegras

Professores do PS perplexos com posição do Governo sobre tempo de serviço

Professores do PS perplexos com posição do Governo sobre tempo de serviço

“Perplexidade”. É deste modo que professores que são militantes e simpatizantes do PS afirmam encarar o comportamento do Governo a propósito da recuperação, para efeitos de progressão, do tempo de serviço prestado pelos docentes durante o período de congelamento das carreiras.

Em resposta por escrito ao PÚBLICO na passada sexta-feira, o deputado do PS, Porfírio Silva, que é o responsável pelas questões da educação na bancada socialista, escusou-se a pronunciar-se sobre a proposta do Governo por entender que as negociações ainda prosseguem. “Esperamos sempre, idealmente, que se alcancem as soluções mais ambiciosas para cada situação, para cada problema. Estou certo de que é essa, também a disposição do Governo. A resolução aprovada na Assembleia da República, com o voto do PS, exprime essa ambição”, referiu.

Justiça