Opinião de Carlos Santos

Antes de mais, urge sugerir que acabem com essa deplorável e estéril guerrinha entre sindicatos! Guardem lá os umbigos, os tachos e as ideologias! Os sindicatos estão (ou deveriam estar), antes de tudo o mais, ao serviço dos professores.
Esta greve não é deste nem daquele sindicato – é uma greve dos professores, pelos professores e para os professores. “Os PROFESSORES” – este é o valor mais alto pelo qual temos de nos unir e pelo qual vale a pena lutar!
Caso os sindicatos não se tenham dado conta, a tutela perdeu-lhes o respeito e, por inerência, atingiu todos os professores. Por isso, é hora de colocarmos de parte as nossas diferenças e nos mobilizarmos.
Há sindicatos a marcar pré-avisos de greve às avaliações de 4 a 15 de junho para afetar as reuniões do 9º, 11º e 12º anos, e outros pré-avisos de greve da plataforma sindical a partir de dia 18 para cobrir as reuniões dos restantes anos e ciclos, desde o pré-escolar ao secundário.
Agora cabe aos professores aderirem, pelo que esta incompreensível troca de «mimos» entre sindicatos só se presta a fazer o frete ao governo desmobilizando e prejudicando os professores antes sequer da luta começar. E, sabem que mais, os professores estão-se nas tintas para isso, porque estão cansados, desgastados e desesperados e já não têm paciência para mais improficuidades infantis.

Em jeito de balanço relembro que há pouco mais de 1 ano fiz um inquérito no meu agrupamento sobre formas de luta a desenvolver e 71% dos professores propuseram uma GREVE ÀS AVALIAÇÕES DO 3º PERÍODO. Fiz chegar essa proposta à Fenprof, devidamente assinada pelos intervenientes, mas responderam-me que, embora a iniciativa fosse louvável, não podia ser considerada como representativa da vontade dos professores a nível nacional. No plenário que se realizou semanas depois na Guarda relembrei Mário Nogueira dessa proposta e a necessidade de se fazer uma greve às avaliações em tempo útil, ao que ele retorquiu que se o fizessem o ME cancelaria a reunião agendada para 6 de junho. Discordei com a estratégia, pois outras classes profissionais fazem precisamente o inverso – marcam as greves para pressionar as tutelas obrigando-as a serem elas próprias a solicitar reuniões para negociar acordos que permitam a desconvocação das greves. E o resultado dessa opção ficou bem à vista de todos – a greve fracassou e foi mais 1 ano perdido para os professores. No dia 7 de dezembro neste espaço virtual voltei a lembrar que, do modo como as coisas estavam a decorrer, a greve às avaliações do 3ºPeríodo iria ser inevitável (eu sei, sou teimoso).
Mas ainda bem que, depois de um ano, os sindicatos reconheceram que esta é uma das melhores formas de luta de que os professores dispõem e estão a desperdiçar, pois “só peca por tardia”.

E a melhor prova é que a última luta que teve impacto e adesão foi a greve às avaliações em 2013 (embora mal aproveitada nas negociações com Nuno Crato que assinou mais um dos muitos compromissos que de nada valeram; que não se voltem a assinar meros cadernos de intenções!).
E o motivo do sucesso dessa forma de luta é facilmente explicável – é uma luta que requer POUCOS RECURSOS HUMANOS e FINANCEIROS:
-Poucos recursos HUMANOS – basta apenas 1 colega fazer greve, de preferência que tenha muitas reuniões (ex. EMRC ou Ed. Musical, Ed. Visual…), para todas elas serem adiadas por 48 horas (que na prática seriam 3 dias para não se sobreporem a outras já agendadas);
-Poucos recursos FINANCEIROS – como apenas 1 professor faz greve e o prejuízo é a dividir por todos os outros, tem um baixo custo.

Embora haja quem ache que não devemos afetar ninguém, nem sequer os pais, esquece-se que a intenção das greves é precisamente essa – incomodar – senão não serve para nada, como tem acontecido com as últimas greves “fofas” e manifestações. Sim, incomodar, causar transtorno, constrangimentos, irritação e aborrecimentos. Só assim vale a pena o esforço.
(Quando os médicos fazem greve causam ainda maior incómodo, pois mexem com a saúde das pessoas. E isso alguma vez os impediu de as fazer? E ao longo dos anos não têm conseguido muito melhores resultados do que nós?)
-Criaria grande abalo com as notas a não saírem, os pais a não poderem matricular os filhos, a não poderem ir de férias (algumas já marcadas e pagas).
-Ao governo, que já tem a experiência do que sucedeu neste género de greve em 2013, geraria um enorme embaraço, pelo que em altura de perda de popularidade não iria querer sujeitar-se a um longo desgaste da sua imagem num braço de ferro que iria perder como aconteceu no governo anterior.
E o calendário joga a nosso favor, uma vez que estamos a apenas 1 ano das eleições legislativas e a principiar o período pré-eleitoral.
Depois de nos ignorarem ao longo de tantos anos receio ser esta a única forma de sermos ouvidos. Só assim serão atendidas as nossas (mais do que justas) reivindicações.

Mas para os mais esquecidos vou só reavivar-vos a memória dos motivos que nos movem, relembrando-vos o que nos têm feito os governos desde há 13 anos a esta parte:
-Congelaram as carreiras, reposicionando os professores em escalões mais abaixo e redução salarial, roubando-nos, além de 8 mil milhões de euros que nunca mais iremos ver usados para pagar a salvação dos bancos e corrupção, também 9 anos, 4 meses e 2 dias de serviço na progressão da carreira em que estivemos a trabalhar;
-Passaram a idade da reforma de 36 anos de serviço para os 66 e 4 meses de idade (sempre a aumentar) num incremento de quase 10 anos de serviço;
-Encheram a componente não-letiva com trabalho letivo, com sobrecarga de trabalho e de burocracia;
-Encerraram milhares de escolas desumanizando-as com a criação dos mega-agrupamentos, fazendo aparecer os «horários-zero»;
-Aumentaram do nº real de alunos por turma;
-Terminaram com a redução de horas devido ao desgaste profissional ao abrigo do art.º 79 aos 40 e aos 45 anos de idade;
-Acabaram com o par pedagógico em EVT e o desdobramento das turmas nas ciências;
-Aprovaram a municipalização do ensino com o perigo que isso acarreta;
-Eliminaram a gestão democrática nas escolas com a diminuição da representatividade dos professores;
-Reduziram o nº de vagas a concurso, menosprezaram os professores nas regras e na data de concorrer (muitas vezes em período de férias) e na publicação das listas de colocação (sem tempo dos professores se mudarem e organizarem as suas vidas);
-Aumentaram as áreas das Zonas Pedagógicas;
-Criaram concursos cada vez mais injustos e demasiado espaçados no tempo, num país onde os criminosos são enviados para casa com pulseira eletrónica e os professores são condenados a cumprir penas de 4 anos longe das suas famílias;
-Retiraram a autoridade aos professores… e muito mais.
-Mas a nossa maior perda foi a da DIGNIDADE e do RESPEITO.
-Em suma, perdemos quase tudo o que havia a perder.

13 anos – este foi o tempo perdido nas nossas vidas e que não volta mais. Estes foram os anos em que deixámos que nos tirassem quase todos os nossos direitos, a nossa estabilidade, o nosso dinheiro, as perspetivas de futuro, a qualidade de vida, o respeito pelo nosso trabalho, o tempo justo para usufruirmos da aposentação… a honorabilidade.
E não se iludam com este governo que em nada difere dos 2 anteriores, porque traíram os professores quando:
-a 20-7-2016 e a 23-4-2018 se juntou à direita para chumbar a proposta de um Regime específico de aposentação para os professores;
-a 28-5-2017 aprovou a entrega das escolas às câmaras;
-a 18-5-2018 uniu-se ao PSD e CDS contra a proposta de Facilitação do acesso à reforma, Definição clara das diferentes componentes do horário, Concursos anuais e transparentes;
-a 25-5-2018 juntou-se à direita do parlamento para rejeitar a proposta de Aposentação sem penalização de 14,5% do Fator de Sustentabilidade a partir dos 63 anos;
-propõe piorar ainda mais a vida dos professores conforme o Projeto de Organização do Ano Letivo 2018/2019 que acaba de apresentar…

Agora não há nenhuma desculpa para não aderirmos a uma luta que é de todos e para todos.
Agora não existe nenhum motivo para não nos unirmos nesta derradeira forma de luta – nem financeiros, nem de dificuldade, nem de logística.
Desta vez não há desculpas nem podem deitar as culpas aos sindicatos.
O momento é “agora”, pois esta é a nossa melhor oportunidade de sermos ouvidos pela sociedade que nos desrespeita e pelo governo que nos ignora e despreza.
Uma luta que não é só por dinheiro, é por muito mais do que isso. Uma luta que é por pequenas grandes coisas que mexem com as nossas vidas e afetam aquilo que é o principal – a DIGNIDADE PROFISSIONAL que queremos que nos seja devolvida.

E que não haja dúvidas de uma coisa – esta não é a última hipótese dos professores nem dos sindicatos – esta é a última hipótese de salvarmos o Estatuto da Carreira Docente (que tanto custou a conquistar) e de salvar a profissão de “Professor”.
-Por esse motivo, todos nós temos consciência de que chegou a HORA.
-A hora de todos os professores se UNIREM!
-A hora de nos devolverem os nossos direitos e o respeito que nos tiraram!
-Esta é a luta para a qual todos os professores estão convocados!

E não tenham ilusões sobre este ponto – esta é uma luta que ninguém pode nem vai fazer por nós.
Caros colegas, já nos tiraram tudo. Agora tiraram-nos a única coisa que nos restava, a menina dos nossos olhos – a nossa DIGNIDADE.
Não sei como vocês se sentem, mas sei aquilo que sinto – angústia e revolta. Sinto-o, porque tal como vós, sou aquilo que muitos não sabem o que é; aquilo que ao fim do dia faz toda a diferença – sou um professor. Somos aqueles que diariamente estamos nas escolas a dar tudo o que temos e o que não temos para desempenharmos da melhor forma a mais importante profissão do mundo – a de educar todo um povo.

Num país onde as pessoas não se mexem para lutar pelos seus direitos, mas estão sempre disponíveis para saírem à rua para andar atrás de políticos ou de futebóis, é hora de vos perguntar:
Estão dispostos a lutar pela recuperação do tempo de serviço roubado, por uma aposentação condigna, por concursos justos, por melhores condições de trabalho e pela recuperação da vossa dignidade?
Estão dispostos a lutar pelas vossas vidas?
Eu estou e, por isso, vou fazer GREVE, porque se não tenho certezas, a única coisa de que estou convicto é de que “A ÚNICA LUTA QUE SE PERDE É AQUELA QUE SE ABANDONA”.

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