Silêncio ensurdecedor – Carlos Santos

1 h · 

DIÁRIO DE GUERRA
Anteontem, 17 de julho de 2018:
Foi anunciado novo ataque.
19 de julho:
A sirene voltou a gritar. Foi novamente avistada a ameaça inimiga.
Habituados no último mês e meio a sucessivos ataques, corremos todos para os abrigos.
Ninguém fala, mas os olhares dizem tudo. Conhecemos perfeitamente o inimigo e percebemos aquilo de que é capaz.

Não sabemos quanto tempo irá demorar até se ouvir de novo o som estridente de uma bomba a cair-nos em cima. Mas, ainda mais ensurdecedor é este doloroso silêncio da espera.
Entrincheirados nos abrigos, mal-armados, arma-nos a força da razão. Sim, temos medo, mas temo-nos uns aos outros. Neste reduto sabemos que haverá sempre alguém ao nosso lado disposto a deitar-nos a mão. E é esta a nossa maior arma; uma arma que o nosso inimigo desconhece e não tem, a que chamamos de companheirismo, de solidariedade.

Os minutos passam tão devagar que a respiração fica suspensa. Não sabemos se o sussurro que ouvimos é o som do silvar das bombas, se o bater do nosso coração acelerado ou simplesmente a nossa imaginação a ser devorada pela ânsia.
Sem o dizer, no íntimo do nosso ser, todos desejamos que apenas seja um falso alarme.

Julgávamo-los nossos aliados, que estavam ali por nós. Sim, por nós e não contra nós. Mas julgámos mal aqueles que se transformaram em nossos carrascos.
Chantagearam-nos oferecendo uma falsa paz com uma rendição humilhante da qual seriamos prisioneiros.
Atacaram-nos sem respeito nem piedade e muitos fugiram, mas muitos outros ficaram. Ficámos e ficaremos para gritar este sentimento que no peito já não cabe mais. Tanta dor e tanto choro, tantos gritos num só lamento.

Atirei o olhar para lá do horizonte
e procurei justiça em toda a parte.
Em cada mar fiz um chão,
em cada rio, uma ponte,
da fome de dignidade fiz pão,
da sede de respeito fiz uma fonte
e desta luta fiz a minha arte.

Só eu sei como te compreendo, colega. Como eu te entendo depois de tantos anos de lágrimas sofridas que te secaram os olhos onde só ficaram a morar a esperança e o desânimo. Os teus olhos falam tudo nas lágrimas dos meus.
Ouvi o silêncio ensurdecedor da dor de tantos que têm estado silenciosos a sofrer. Eu vi o que te doeu tanto, de tanto que preferia não ter de ver. Eu vi nos teus olhos o desalento de nunca mais ver chegar o dia…
Mas garanto-te, companheiro amigo, que chegará o dia em que esse dia irá chegar. O dia em que sorrindo de alegria irás chorar. O tal dia em que, chorando, irás sorrir por tudo o que irás alcançar.

Cansados e assustados, temos consciência de que ninguém nos virá resgatar neste cerco que nos fizerem, tão-somente pelo crime de sermos professores em luta contra a injustiça. Um crime cujo preço estamos dispostos a pagar, por sabermos que ser professor é ser diferente de toda a gente. Um combate que estamos dispostos a travar contra a iniquidade e a repressão onde fomos colher forças para nos unidos, por não aceitarmos tanta ingratidão.

Isolados, mas convictos, ninguém vai a lado nenhum porque, agora, esta é a nossa casa. Aqui é o nosso lugar. Uma casa sem teto e sem lugar, impossível de alcançar. Um lugar invisível a que o inimigo não conseguirá chegar. Um lugar intangível, mas forte, que mora no nosso peito.
E aqui estamos nós! Vimos sem medo, vimos sem nada.
Nesta luta desigual contra Golias, já não temos uma mão vazia e outra cheia de nada. Nas mãos vazias nada trazemos e nada precisamos, a não ser a arma da razão numa mão e a da justiça na outra.

Perseguidos e incompreendidos, não nos resignámos. De olhar fechado e coração aberto, firmes e resistentes não desistiremos.
O meu coração já não bate sozinho, bate pelos outros companheiros e os deles batem por mim. Todos os corações aqui presentes batem em uníssono a um só ritmo; deixámos de ser muitos para sermos um só; todos unidos num só desejo, num só sentimento, numa só vontade, numa só coragem, numa só certeza – a de que não desistiremos e que iremos até ao fim.
A certeza de que o nosso grito vai parar a rua, parar a cidade, parar o país, porque o que começámos já é impossível de parar. É impossível parar este sentimento que é gente e parar gente que é sentimento.
As bombas podem cair, mas daqui ninguém vai sair.
O silêncio já deixou de ser ensurdecedor – os nossos corações batem mais alto!
Cansados de esperar, não mais vamos ficar sentados; não mais ficaremos calados. Vamos correr até ficarmos sem fôlego; vamos gritar por justiça até a voz acabar…

Carlos Santos (um de muitos resistentes)

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