Desalojados- Carlos Santos

Anoitece quando finalmente me rendo à divina ciência terapêutica de derramar palavras para escorraçar do pensamento esta parasitária inquietude que me devorava por dentro. Lá fora, só a alquimia de um sol irreal de fim de tarde que para lá do horizonte transmuta em ouro todas as protuberâncias da cidade me recorda que ainda é verão. Nem o céu infinito de azul-anil de final de agosto conseguiu ocultar as tenebrosas nuvens invisíveis de angústia e ansiedade que se abatiam de negrume sobre a vida de tantos professores. Foi só mais um de tantos dias de espera deserto de respostas…
«Já saíram…?» – foi a pergunta repetida debaixo de tantos tetos como o meu.
Tendo tresnoitado faltava-me alento e inspiração para destronar este estado meditabundo que durou semanas.

Vem-me à memória o dia antes de hoje quando alguém na rua abreviava a vida de um inseto com uma palmada certeira, sorrindo triunfante – Raio da mosca! Esta já não chateia mais!
Para dizer a verdade, nesse mesmo instante senti que, de certo modo, eu era aquele inseto a ser esmagado. Esmagado porque, como tantos de nós, ousei levantar a voz da indignação e incomodar com uma greve a seleta horda de cretinos que esteve absorta num providencial labor de dilatação da data de publicação das listas que definirão o nosso futuro. Um prazer mórbido de quem pretendeu degustar até ao êxtase este nosso compungimento.

Da casa da democracia que se transformou num prostíbulo onde se prostitui um compêndio de diletantes ciosos apenas dos seus próprios interesses, no meio da sua decadência moral, ainda lhes sobrou acrimónia suficiente para descarregar esta atitude vingativa sobre nós. Não que tal conduta perniciosa para a vida dos docentes seja uma novidade por parte de próceres que se deleitam em nos tratar como impessoas. Mas porque, após os dissabores causados pela luta da nossa classe, este adiamento até ao limite adquiriu contornos com requintes de malvadez numa espécie de retaliação a ser dolorosamente paga pelos professores.
Um jogo de espera que geriram com uma argúcia virulenta de tortura psicológica com efeitos nefastos para nós que somos tão-só os cidadãos que exercem uma das mais importantes profissões do mundo, responsável pelo futuro do país e pela existência de todas as outras profissões.
Um silêncio tenso maquiavelicamente urdido para nos manter semivivos reduzidos a um mero utensílio. Não me restam dúvidas de que nós e as nossas famílias nada mais somos do que títeres nas suas mãos.
Mesmo lutando por resistir, sucumbi a demasiadas noites sem me conseguir encontrar com o sono aguardando a saída das listas de colocação… ou de condenação para aqueles que foram bafejados por uma colocação pouco feliz ou, simplesmente, a infausta sorte de não a terem conseguido e serem compelidos para o centro de emprego.

Mas não há quem se interesse com aquilo que acontece aos outros. As pessoas estão imersas em frivolidades disponibilizadas pelo mercado do espetáculo, do folguedo e do entretenimento mantendo-as convenientemente alienadas e embrutecidas.
Permitam-me que não estranhe o silêncio sepulcral da sociedade sobre este ato de opereta trágica das nossas vidas.
Um drama desfeito em mil histórias.
Professores a viverem na incerteza do dia de amanhã com receio que o seu mundo se desmoronasse ao seu redor.
A aguardarem longamente para saber se iriam ver reduzidos os seus proventos durante o próximo ano.
Sem saberem se iriam ter emprego e onde.
Desconhecendo em que lugar do país iriam trabalhar.
Não sabendo se teriam transporte para esse lugar, se o teriam de adquirir ou se, pela distância, teriam de tratar à pressa de mudar de casa com todos os transtornos que isso acarreta.
Professores que, em virtude deste inaceitável atraso na divulgação dos resultados dos concursos, dois dias úteis depois da publicação terão de se apresentar na escola que lhes calhou em sorte num qualquer sítio desta nossa terra, e nesse mesmo dia procurar um teto onde morar para não terem de dormir na rua.
Portugueses de segunda cujos filhos também mereciam o respeito de ser concedido aos seus pais tempo para encontrarem uma escola ou creche para si. Crianças nómadas como os pais que não criam raízes nem laços em nenhum lugar e com as quais ninguém se preocupa.
Pessoas a quem lhe foi ceifado o tempo para preparar a família para a ausência prolongada, especialmente as crianças que têm dificuldade em compreender o motivo pelo qual, de um momento para o outro, lhes é retirado de casa a mãe ou o pai.
Toda a instabilidade de uma vida mudada num fim de semana e a obrigação de se apresentar ao serviço com o sorriso solícito nos lábios para enfrentar uma nova escola, novas organizações, nova vida, novas rotinas, nova solidão, não acolhe nenhuma atenção nem consideração por parte dos nossos concidadãos e muito menos dos governantes.
Não há alma que se importe com esta página negra da nossa vida. De um dia para o outro os professores, e por vezes as suas famílias, simplesmente desaparecem e todos assobiam para o lado como se nada tivesse acontecido.

Na realidade, é nestas ocasiões que me apercebo que não há curso, pedagogia, nem cátedra que nos prepare para isto.
Desalojados da própria casa e das suas vidas, munidos com o que resta de coragem e uma trouxa, são migrantes que partem levando o mundo às costas suportando mais uma árdua vicissitude da vida de professor.
A migração de famílias tornando-as refugiadas dentro do seu próprio país é um lugar-comum para quem abraça esta profissão, mas não ao ponto de terem de aceitar emudecidas estes atos de menosprezo e humilhação.
Vidas familiares desconjuntadas assombradas pela ânsia, pela angústia, pela distância, pela perda e pela revolta são a consequência da selvajaria desta atitude de desprezo que reduz a condição humana a um facto, a um número, a mero lixo.
Que conste que também somos cidadãos. Cidadãos que tentam formar e educar um país mereciam mais respeito, nem que fosse apenas pela publicação atempada das listas de colocação para, com o mínimo de dignidade, poderem preparar o porvir das suas vidas.

Perante esta falta de polidez no trato dado à nossa classe, permito-me desfazer-me da parcimónia nas palavras e indagar:
Como é possível não nutrir desprezo por estes estadistas que nos tutelam quando os mesmos têm a impudência de vir a público com uma oratória ataviada e indecorosa sobre a esperada normalidade do início do ano letivo?
Como poderá começar com normalidade sem prejudicar os alunos se no início de setembro os professores estarão divididos entre as emoções da separação abrupta da família e procura de casa e o início de preparação do ano escolar?
Se do outro lado da fronteira, o governo proporciona a colocação dos docentes no início de agosto, qual o motivo de por cá nunca o fazermos?! Pura incompetência ou supino desrespeito?
Como pode não cheirar a falsídia um país que se dá ao luxo de lançar quimeras sobre a hospitalidade de acolher refugiados quando trata desta forma cruel os seus próprios cidadãos?
Esta é a face da hipocrisia de um povo que se recusa a olhar para fora cá dentro.
Desejo que todos os colegas tenham ou ainda venham a ter felicidade nos concursos.

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