Vítor Encarnação – Quando a porta se fecha

Recomeça por estes dias mais um ano lectivo e com ele regressarão as costumeiras questões políticas e sociais sobre princípios e rumos da educação. O que deve o ministério fazer, o que devem os sindicatos defender, o que devem os pais preparar, o que devem os alunos saber, o que devem os professores executar. A educação é uma organização de uma extrema complexidade e é pois óbvio que ela tenha de ser fundada em leis, estatutos, organismos, serviços, órgãos, estruturas, currículos, manuais, calendários, projectos, planos, planificações, critérios de avaliação, reuniões, pautas. É este o desenho da educação e talvez só assim, acreditemos, todo o sistema tenha a consistência necessária para não ruir. Mas, por mais regras e orientações que existam, onde realmente toda a educação se processa é na sala de aula. É aí que tudo acontece. Um homem ou uma mulher perante vinte e cinco vidas, vinte e cinco formas de ver o mundo, vinte e cinco ambientes e formações familiares diferentes, vinte e cinco telemóveis, outras tantas bocas quase sempre a falar sobre tudo e sobre nada, por vezes o dobro dos ouvidos ausentes. Dramas, sonhos, medos, reptos, cinquenta olhos sentados a fixarem o docente. E o docente, é assim a palavra moderna para professor, a tentar não esquecer-se da lei, do estatuto, do artigo, do currículo, a fazer coincidir o sumário com a planificação, a mandar calar, a explicar, a explicar novamente, a mandar calar novamente, a não esmorecer, a ser pai e mãe e psicólogo e ainda assim, ao mesmo tempo, a conseguir dotar os alunos de conhecimento, princípios e valores. Quem gosta de ensinar sabe que só quando a porta da sala de aula se fecha é que todas as outras portas se abrem.

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