“Treinei-me para deixar de sentir” ou quando a Escola se desumaniza

«A Escola sempre foi para mim um lugar de prazer onde me sentia mais inteira e mais eu. Onde encontrava o sentido para a vida. Na minha primeira escola, em terras africanas, descobri as outras crianças, as alegrias do recreio, as argolas, o trapézio e os baloiços. Nas carteiras da 4.ª classe, descobri o futuro que havia em mim. Logo ali disse que iria ser da História. Era a história narrativa daqueles primeiros anos que me prendia e me fascinava. Mais tarde, em Lisboa, reforcei essa vocação nas aulas de professoras que usavam métodos exclusivamente expositivos, hoje considerados ultrapassados, mas que me prendiam pela palavra. Também nos livros juvenis de ficção histórica, cuja trama me transportava para a Grécia Antiga e para as outras civilizações. […] 

Foram 38 anos. Quase todos felizes. Só nos últimos deixei de sentir a alegria de cada começo e só esperava que chegassem ao fim. O cansaço, o desgaste, a desilusão vieram substituir a adrenalina que nascia todos os anos no mês de setembro. A escola mudou. 

Primeiro foi a imposição do eduquês. Depois, a proliferação de disciplinas que só serviam para uma compartimentação desnecessária do saber e para aumentar a carga horária dos alunos e o peso das suas mochilas. Simultaneamente, assistiu-se à desautorização sistemática dos professores perante muitos atos de indisciplina dos alunos que as direções desvalorizavam e deixavam avolumar-se. Nunca cedi perante o que passou a ser politicamente correto e sempre consegui, na sala de aula, o respeito dos alunos, prendendo-os à minha palavra, envolvendo-os no trabalho e nunca admitindo comportamentos menos apropriados. Como todos os professores, tive que me adaptar às novas tecnologias da informação e, depois das primeiras tentativas frustrantes, aderi com entusiasmo vendo o benefício que delas retirava na construção de materiais pedagógicos que davam mais cor e vivacidade às aulas. 

Depois, tudo piorou. Foi o princípio do fim. Chegou uma ministra que se gabava de não ter o apoio dos professores para as reformas que desejava implementar na educação…

Ana Paula Torres

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