Os eucaliptos – Luís Costa


Paulatinamente, o debate desta questão fulcral tem sofrido uma perigosa simplificação: o almejado regresso à gestão democrática das escolas está a ser reduzido, no verbo e nas intenções, à mera alteração do processo de eleição do Diretor. Uns fá-lo-ão intencionalmente, outros sem intenção, mas, na verdade, todos os que marcam presença nesta ala discursiva estão a contribuir para a perpetuação da dita figura. É a velha e bem conhecida estratégia de mudar o suficiente para que tudo (o que é “essencial”) fique na mesma. Só por ingenuidade ou insídia se pode crer, ou fazer crer, que algo de substancial vai mudar apenas com essa alteração. O instalado halo (de prepotência, de intimidação e de cumplicidades) que os diretores têm anafado só se dissipará com o desaparecimento do cargo, recolocando no seu lugar uma referência com muito mais e melhores conotações democráticas: o Presidente. […]

 Tal como um eucalipto, a autoridade do Diretor parece crescer, vigorosa e assombrosamente, à custa da autoridade dos professores, que se esvai de forma inversamente proporcional. E tem sido tão célere este processo de decomposição, que alunos e encarregados de educação (em geral, claro) têm hoje a perceção de que os professores são meros verbos de encher, meros ensinadores e “propositores” de notas condicionadas. E não andam muito longe da verdade: nas escolas reina a desautorização, a demissão, a omissão, o medo. Em todos os órgãos impera a vontade do Diretor. Já não há genuínas discussões, já não há genuínas críticas, já não há verdadeiro contraditório, já não há verdadeiros sufrágios: a discussão é entendida como obstáculo; a crítica é recebida como afronta, como declaração de oposição ao regime; o contraditório é mera “perda de tempo”, pois já todos sabem que tudo está previamente orquestrado e decidido; o mesmo acontece com os sufrágios, que ocorrem quando um diretor se lembra de fingir que não nomeia (prefiro os que assumem a sua própria escolha). Estranhamente, muito estranhamente, a superautoridade dos diretores parece não estar a produzir nem superdisciplina nem superempenho discente. Bem pelo contrário. Porquê?

É este o estado a que chegaram as dinâmicas nas nossas escolas. O caso não seria muito dramático, se se tratasse de fábricas de pregos. Contudo, como é nesses espaços que formamos não só os profissionais mas também os cidadãos, os homens e as mulheres do futuro; como é nesses espaços que ensinamos o respeito ou deixamos crescer na brutalidade; como é nesses viveiros que cultivamos a liberdade ou a submissão; como é nesses ovos que chocamos a democracia ou o veneno que a poderá aniquilar, então o caso muda radicalmente de figura.

É por estas simples miudezas que urge abrir todas as portas, desmantelar todas as gaiolas, estirar as asas, beber pluralismos, enfim, devolver a democracia às nossas escolas, antes que esta silenciosa e cinzenta anemia evolua para leucemia letal.

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