A aferição inútil – Paulo Guinote

Quatro anos de provas de aferição resultaram num processo desconexo, descontínuo, sem sequência e sem a possibilidade de gerar informação verdadeiramente relevante sobre a evolução das aprendizagens dos alunos.

Quando no Parlamento, logo no início do mandato do actual Governo, no que agora alguns considerariam uma inconstitucional ingerência nas competências do poder executivo, se legislou o fim das provas finais do Ensino Básico para os 4.º e 6.º anos, mesmo discordando claramente da medida e em especial da demagogia ligada à retórica do “fim do exame da 4.ª classe”, fiquei na expectativa do que poderia vir a seguir. E mantive essa expectativa quando foi anunciado que seria criado um sistema de provas de aferição para os três ciclos do Ensino Básico, com rotação das áreas disciplinares a aferir.

Quando surgiu a proposta de implementação, começaram as reservas: então era pedagogicamente desadequado fazer provas no 4.º ano com um peso de 30% na classificação final, mas já era apropriado submeter alunos do 2.º ano a uma bateria de provas em pleno decurso do ano lectivo? E a aplicação das provas agravou essas reservas. Desde 2017 que os alunos do 2.º ano são submetidos a provas de Português/Estudo do Meio, Matemática/Estudo do Meio, Expressões Artísticas e Expressões Físico-Motoras. Sim, o 3.º período transformou-se no período da aferição para os petizes do 2.º ano, provocando natural disrupção em todo o funcionamento das escolas do 1.º ciclo, devido à insistência em não estabelecer um período específico para todas estas provas, de modo a não mobilizar espaços, tempo e pessoal docente e não docente durante quase todo um período lectivo.

Mas também cedo se percebeu que, no caso do 2.º ano, o que estava mesmo em causa era demonstrar uma tese sobre o ensino praticado e as suas alegadas lacunas, muito sensíveis para um grupo específico de pressão com poder crescente no Ministério da Educação. E o que veio a seguir só reforçou essa percepção…

O 10 De Junho…

O Meu Quintal

… é um dia dedicado a uma espécie de sessão pública de terapia sem consequências. O João Miguel Tavares fez um bom discurso, como já o fizera, por exemplo, António Barreto em 2011, curiosamente em Castelo Branco, não muito longe de Portalegre. Qual o problema? Estes discursos são feitos por quem não tem qualquer poder efectivo na condução da governação, não sendo difícil muita gente com responsabilidades dizer que concorda e depois nada fazer em conformidade. E quando chegam perto do poder de mandar fazer coisas a sério ou são obrigados a compromissos, em nome do realismo, ou mudam por completo a agulha, tipo lavagem completa ao cérebro. Por isso, prefiro JMT como cronista, mesmo quando dele discordo, do que a deixar-se seduzir por aproximar-se de um poder que está demasiado contaminado. Não vale a pena apelar aos “políticos” porque só isso já revela o quanto eles são…

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