Santana Castilho no Público

As perguntas urgentes do momento

“A Google e a Microsoft respondem pelos dividendos que distribuem aos accionistas. Os professores respondem pela humanidade que acrescentam aos seus alunos.”

O Programa de Estabilização Económica e Social destinou 400 milhões de euros para comprar computadores, garantir a conectividade das escolas à Internet, adquirir licenças de software, financiar um programa de formação digital dos docentes e incrementar a produção de novos recursos digitais.

Sendo necessária, a modernização digital não resolve o problema de fundo da Educação em 2020/2021, que requererá mais professores, mais assistentes operacionais e mais técnicos especializados. O que é crítico na profissão docente é a dimensão humana. A destreza manipulatória das tecnologias é necessária e extremamente útil, desde que submetida à tutela daquela dimensão, primeira e fundamental. Perdê-la, no vórtice do deslumbramento tecnológico, é perder a dignidade profissional…

Santana Castilho continua a acertar no alvo. Até mesmo a formação que deveria ser crítica e criativa dos modelos de ensino, vai arrastando os professores para a constante desmobilização de uma ação autónoma.

Opinião – Ana Coelho Pais

AINDA AS CRÍTICAS ÀS AULAS A DISTÂNCIA

Obviamente que nem tudo 8úcorreu bem nas aulas a distância. Foi um enorme esforço para todos. Os alunos viram-se de um dia para o outro em frente a um computador (quando o tinham, é um facto…) , um pouco perdidos para encontrar aulas, disciplinas e matérias. As famílias, muitas em teletrabalho, sentiram-se assoberbadas com mil e uma tarefas em simultâneo e sem meios necessários para todos. Os professores tiveram de mudar de estratégias, de ferramentas, de modo de leccionar da noite para o dia, procurando igualmente os meios que tinham em casa para começar a emitir as suas aulas e conseguir comunicar com todos. As escolas (direcções, equipas pedagógicas, assistentes operacionais, técnicos administrativos e demais profissionais) montaram uma verdadeira estação de suporte a toda esta logística, não esquecendo a manutenção dos apoios necessários aos filhos dos profissionais da linha da frente, tendo continuado a garantir apoio social em termos alimentares a muitos alunos e disponibilizando o pouco material informático de que dispunham (dentro naturalmente das suas limitações que são sempre muitas em termos de recursos materiais) aos alunos que o não tinham, O próprio Ministério da Educação (justiça lhe seja feita nesta matéria), fez o que pôde e bem em termos do Ensino a Distância, igualmente em tempo record. Todos fizeram o melhor que conseguiram.

Num momento de total excepcionalidade como o que o Mundo viveu (e ainda vive), exigir a perfeição neste plano seria porventura utópico e caso único no meio de tanta coisa que teve de ser improvisada, feita à pressa e sem possibilidade de muita reflexão. É assim mesmo que acontece em alturas atípicas e aflitivas como esta. De certo modo esta pandemia foi como uma invasão. Fomos invadidos e tivemos de fazer o melhor que pudemos. De repente e sem ensaios.

Mas talvez que uma das críticas mais injustas que se lhes fez foi precisamente a que é mais ambígua. Criticaram-se muito as aulas a distância por tentar reproduzir as aulas em presença, mas depois exigiu-se-lhes que fossem o mais parecidas possível com essas mesmas aulas.

Ora nem uma coisa deve ser (as aulas a distância não devem ser aulas em presença. Não têm esse objectivo, nem estratégias, nem meios) nem a outra é possível (as aulas a distância não podem ser aulas em presença. Não é possível reproduzir a distância nem o factor humano, nem a interacção pessoal em sala de aula presencial).

Houve certos exageros de trabalhos? Sim, houve. Houve dificuldades na comunicação entre tarefas e “nets” a cair? Sim, houve. Houve alguma falta de uniformidade na chegada a todos das aulas a distância? Sim, houve. Houve falta de meios universais que garantissem que tudo corresse de modo absolutamente igual para todos? Sim, houve. Há espaço para melhorar e para crescer? Sim, Muito. Mas acresce dizer que, no meio do receio geral e natural da doença, das limitações urgentes impostas em termos de saúde pública, quando (quase) todos tivemos de nos recolher a nossas casas perante um perigo sanitário totalmente desconhecido, esta foi uma primeira experiência de trabalho para muitos dos seus intervenientes: alunos, professores, escolas e famílias. Acho que dado o enquadramento em que tudo ocorreu, o que foi feito foi, ainda assim, muito positivo, constituindo um ponto de partida para o muito que há a construir neste plano.

Todos nós teremos naturalmente e muito bem a nossa opinião sobre esta e quaisquer outras matérias. É assim que tem de ser. É assim que deve ser. Este é apenas o meu ponto de vista. De alguém que lá esteve e ainda está. Por dentro do processo, a lutar com dúvidas e dificuldades como todos nós nas nossas vida profissionais. Mas que, por isso mesmo, sente que um pouco mais de tolerância e abrangência na crítica ao enorme esforço que foi feito, sem aviso, sem rede e quase sem meios, num momento único e tão difícil da nossa História Colectiva, seria porventura uma atitude justa, avisada e sensata a tomar.

Paula Coelho Pais

Lisboa, 24 de Junho de 2020

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