Hoje não à escola – Joana Marques

(*) O título, ao contrário do que possa parecer, não está errado. Hoje o Governo resolveu dizer não à escola, o que garantirá trabalho extra ao copydesk de texto deste e doutros jornais, quando os cronistas do futuro enviarem textos intitulados “oje naum á xecóla”. “Que exagero!”, dirão. E claro que têm razão.

Não serão 15 dias sem aulas a comprometer uma geração inteira. Mesmo que esses 15 dias surjam na sequência de um ano em que as aulas presenciais também escassearam. O problema não está no momento presente. Está a montante, e a jusante, e em todos os outros conceitos que aprendemos nas aulas de Geografia, quando existiam…

O link tem um erro! escreva na pesquisa do dn o título do artigo que vai lá ter.

https://www.jn.pt/opiniao/joana-marques/hoje-nao-a-escola–13269105.html

Confinamento escolar sem estratégia

Foi uma semana sui generis. Na segunda-feira, o primeiro-ministro reafirma que, apesar do agravamento da pandemia, todos os estabelecimentos de educação e ensino devem permanecer abertos. Na terça, foi anunciada a realização de testes rápidos à população escolar nas escolas secundárias, a começar ainda esta semana. Na quarta, perante números ainda mais alarmantes de novos casos, internamentos e óbitos devidos à covid-19, membros do Governo reúnem de emergência com epidemiologistas para reavaliar a situação das escolas. Quinta-feira, o Conselho de Ministros decide o encerramento de todas as escolas por 15 dias, a iniciar logo no dia seguinte.

Esta passagem do oito ao oitenta no espaço de uma semana traduz a clara desorientação do Governo na gestão da pandemia. A medida de encerramento das escolas, agora tomada na sua forma mais gravosa, faria todo o sentido se fosse adotada na sequência da pausa natalícia – um prolongamento das férias com os alunos em confinamento obrigatório poderia ter contrariado eficazmente a onda de contágios decorrente das movimentações e encontros familiares que ocorreram durante o Natal. Mas há, além da precipitação nas decisões, que são sempre tomadas in extremis, uma notória incapacidade de avaliação e antecipação, restando assim a política de correr atrás do prejuízo, que já faz de Portugal um dos países do mundo com maior percentagem de infectados e novas infecções.

Mas mesmo a medida de confinamento total da população escolar, além de pecar por tardia, revela, nas suas inconsistências e fragilidades, a falta de uma estratégia eficaz para assegurar, na medida do possível, a continuidade do ano lectivo. Desde logo, porque parece não se ter aprendido nada com a experiência do ano anterior. Preferiu-se diabolizar o ensino à distância que, sendo uma solução imperfeita e limitada, é a possível e desejável no actual contexto. Não faz sentido pô-lo de parte, depois de todo o investimento que os professores, as escolas e o próprio ME têm feito no ensino online, para decretar umas completamente desfasadas férias escolares. Que implicarão, se for por diante a ameaça ministerial, o sacrifício das férias do Carnaval e da Páscoa e o adiamento, por mais uns dias, do final do ano lectivo. Por outras palavras, um inexequível período lectivo de praticamente cinco meses, um absurdo pedagógico em que só alguém tão desfasado da realidade como Tiago Brandão Rodrigues poderia conceber.

E, no entanto, o confinamento anunciado apenas adia, nada resolvendo, as decisões a tomar. Poucos acreditarão que, dentro de duas semanas, a situação epidemiológica do país esteja substancialmente diferente, de modo a permitir o regresso às aulas presenciais. E nessa altura, sem outras alternativas, não restará senão o recurso, em piores condições do que as que teríamos agora, à implantação do regime não presencial.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa