A revolução industrial no Algarve – Jacinto Palma Dias

A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL DO ALGARVE

Continuando a dar-nos notícia dos acontecimentos no Algarve depois do final da guerra civil, Jacinto Palma Dias prossegue:

“Quando o caminho-de-ferro chega a Faro em 1889, um quarto de século depois da primeira fábrica de conservas se ter instalado, já se podia falar de uma ” Revolução Industrial do Algarve”, ao arrepio das tristes constatações, tanto de Silva Lopes como de Bonnet, registadas meio século antes (1). E que surpresa face à resistência da classe política em assinar o contrato para a construção da linha férrea do Sul, alegando ir essa linha em direcção a um ” descampado”(2).
O efeito mina de S. Domingos teve efeitos inesperados. Imprevisíveis, até, por o Algarve ter ficado completamente queimado com a violência que a guerra civil nele lavrou. Ainda em 1850, Charles Bonnet confessava que em grande parte de Portugal se considerava o Algarve uma região selvagem (3) e mesmo há não muito tempo continuavam a proibi-lo de levantar a crista, como ilustra a afirmação de um famoso que, no seminário “O Independente” de 7/4/89, alegava preferir um alentejano burro a um algarvio espertinho. Mas enganaram-se.”
Jacinto Palma Dias
Algarve Manifesto, Págs.46/47
Selecção de texto de Amélia Resende

Notas:
1- António Pedro Manique – ” O Algarve face ao liberalismo económico” in Maria da Graça Maia Marques – ” O Algarve da Antiguidade aos nossos dias”, pág. 365, 397.
2- Ibidem, pág. 389 – Lisboa 1999.
3- Jacinto Palma Dias. O Algarve Revisitado.1994. Pág. 76.

RENASCIMENTO DO ALGARVE: OS NOVOS EMPRESÁRIOS

Prosseguindo na demonstração de como depois de um longo período de estagnação o Algarve renasce das cinzas, Jacinto Palma Dias afirma:

“Em primeiro lugar, o Algarve tinha que romper a sua condição de insularidade. A carreira LisboaAlgarve com embarcações a vapor tinha a duração aproximada de 2 dias e foi inaugurada em 1853, mas a mais importante novidade foi a que proviocou o efeito mina S. Domingos, ligando o Algarve às cidades industriais inglesas. A proliferação de fábricas de conservas foi evidente a partir de 1880 e aí podemos falar da inauguração do “fast food” como regime alimentar, e não só Vila Real renasceu depois de um século de estagnação, como todo o Algarve encostado ao Sotavento (1).
Vila Real de Santo António era – por absurdo – uma urbanização sub-aproveitada e semi- abandonada, constituindo o ideal para uma instalação industrial. Por isso, os muitos empresários estrangeiros que nela se instalaram, usufruíram de um equipamento urbano já montado, sem os entraves de qualquer pressão social ou legislativa. Italianos, gregos e espanhóis fizeram a vila crescer ao ritmo que os urbanistas denominam o ” crescimento cogumelo” e ultrapassando o cenário burguês até então vigente no Algarve, o qual era constituído por uma classe que apenas especulava sobre o produto, enquanto os novos empresários transformavam-no, criando valor.”
Jacinto Palma Dias
Algarve Manifesto, pág.47

(1) – Carminda Cavaco – o Algarve Oriental: as vilas, o campo e o mar.
Faro 1976.

Uma opinião sobre “A revolução industrial no Algarve – Jacinto Palma Dias”

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s