Eterno retorno

A idade avança e antes de dormir, começo a ter recordações do passado longínquo. Transformam-se ocasionalmente em sonhos. Desta vez foi com a minha bisavó Custódia que teve três filh@s, ficando viúva muito cedo (Manuel, Adelino e Maria) e faleceu com idade avançada na casa de meus pais em Baleizão. Nessa aldeia onde vivi uma primeira infância muito feliz, com a liberdade que as crianças hoje em dia não podem ter. Foi nessa aldeia que que tive o primeiro contato com a dureza do fim da vida, que na cabeça de uma criança de quatro anos é uma preocupação passageira. Hoje percebo que morria gente de mais, alguns jovens por desnutrição ou precariedade de cuidados médicos.

Estes óculos são a melhor recordação da minha bisavó!

Muito amor e carinho

Avaliação final dos alunos que chegaram da Ucrânia:
Muito amor, carinho e um abraço apertado.
E avaliar o quê?
Que em poucas semanas muitos já quase falam melhor português do que alguns alunos portugueses?
Se for para avaliar a enorme coragem de terem sobrevivido àqueles horrores, terem sido obrigados a abandonar a sua casa, a sua terra e, por vezes, parte da sua família e ainda estarem dispostos/disponíveis, com educação, a irem para uma sala de aulas de um país, língua e cultura estrangeiras, acho que merceiam um louvor.

Carlos Santos

foto Luis Costa

É PARA SI, SR. MINISTRO! É DEUS – Luis Costa

O ministro da Educação não precisava dele, porque o esgotamento físico e psicológico dos professores portugueses já é sobejamente conhecido, há muito tempo. Contudo, João Costa tem na sua posse as conclusões de um estudo científico sobre a saúde mental de alunos e professores. E o que fez? Apontou-nos o dedo desconfiado e acusador, desautorizou-nos publicamente, provocou-nos ainda mais indignação e despertou a nossa latente e velha revolta interior. Um autêntico elefante numa loja de cristais.

O “burnout” a que chegaram muitos milhares de professores deste país deve-se, em grande parte, ao insano vórtice reformista e aos abusos perpetrados pelo ministério da Educação nos últimos dezassete anos. É natural, pois, haver muitos professores esgotados, em situação temporária de baixa médica, e também um número considerável a recorrer à mobilidade por doença. Trata-se de uma consequência natural (previsível e inevitável, digo eu) do autêntico terrorismo psicológico e laboral a que todos temos estado sujeitos, e que o ministro, de forma absolutamente desastrosa, veio agravar, com a sua incendiária entrevista ao Expresso. Pior era impossível.

João Costa, à semelhança de outros que o precederam, gosta de evocar o seu vínculo à docência para reforçar a sua autoridade enquanto ministro da Educação. Para além dos muitos quilómetros palmilhados, de escola em escola, por todo o país, o ministro diz ter alma docente e vasta experiência de ensino. Sabe, portanto, do que fala e conhece bem o terreno sobre o qual tem de decidir. Todavia, a sua costela docente não parece muito ativa (e muito menos preponderante) no pensamento e na ação do ministro. Enquanto docente, o ministro teria de ser chumbado. Se ele (ministro) fosse o professor e nós (os professores) fôssemos os seus alunos, a sua atuação seria imperdoavelmente antipedagógica. Na aula de apresentação, o que fez este professor, assistente do anterior, autor de muitas das suas planificações de aula e seguidor metodológico dos precedentes, sobretudo da pedagoga precursora desta série pedagógica topo de gama? Perante a situação calamitosa a que se chegou (a de ninguém querer ser “seu aluno”) o professor não teve a humildade de rever e pôr em causa o método seguido, as estratégias e as atividades implementadas, há mais de década e meia, ou seja, não se autoavaliou. Apontou o dedo aos alunos — que, há muitos anos, se dedicam de corpo e alma — insultou-os, chamou-lhes incompetentes, sugeriu que são preguiçosos e dissimulados e anunciou-lhes severidades. Mas não se ficou pelos “alunos”, atirou-se também aos “pais e encarregados de educação”. Pior começo era impossível, “senhor professor”!

Na já famosa entrevista ao Expresso, o ministro da Educação diz, claramente, que nós não sabemos ensinar alunos com dificuldades. Não fomos formados para tal. O problema não está, portanto, nem na “sua inclusão” nem na “sua flexibilidade”, está em nós, professores, e a montante, nas universidades e institutos superiores, que também não estão a fazer bem o seu trabalho, formando apenas para o “ensino fácil” (ensinar bons alunos). Mas não se fica por esta reguada, anuncia-lhes também uma autêntica vassourada curricular e metodológica, para que aprendam a adaptar-se aos novos tempos e às suas exigências (“A formação tem de ser reconfigurada”). Pois bem, estas instituições que se defendam, que sabedoria e poder não lhes faltam. Eu, enquanto reles professor do ensino básico e secundário, daqueles muitos milhares que foram tão mal ensinados a ensinar e a quem, pelos vistos, tanta experiência de ensino nada trouxe de bom, pergunto apenas o seguinte: para além da “má formação inicial”, os milhões de horas de formação contínua com que os professores têm sido massacrados (dose generosamente reforçada pelo anterior secretário de Estado, atual ministro) têm servido para quê? Bem, se o processo decisório é um dogma sagrado, então só podemos concluir que é mesmo necessário um 54 para os professores. Já não vamos lá com medidas universais, urge encarar as restantes, convicta e decididamente.

Para além da nossa formação inadequada e insuficiente, o nosso ministro vê também outros males que afetam muito negativamente o bom funcionamento do sistema de ensino. Um está na já referida mobilidade por doença, que, no seu entendimento, regista um excessivo número de utentes. Como é que os professores podem ser tão ingratos ao ponto de adoecerem após tantos anos de bom investimento na Educação? Há, pois, que moralizar esta situação, mitigando também, por essa via, o grave problema da falta de professores. Como? Estabelecendo cotas. A partir de uma determinada cota, não há mobilidade para ninguém. Resultou com o 5.º e 7.º escalões, resultará agora, por certo. A mobilidade é, aliás, a grande causadora do segundo mal. Há excesso de mobilidade na contratação e vinculação dos professores. É por isso que o ministro quer inverter toda a lógica dos concursos. A classificação profissional é coisa do passado, injusta e perversa. Na verdade, por que carga de água os professores com melhor classificação profissional hão de ficar à frente de outros (talvez até com software pedagógico mais moderno)? Por que carga de água um professor mais moderno, mais bem equipado e com mais extras, não há de passar à frente de muitos outros — já a precisarem de uma revisão profunda ou a descaírem para a sucata — se aceitar estacionar numa escola até ao final da carreira? Como é que ninguém se tinha lembrado disto antes? É espantoso!

Uma coisa é certa, caras e caros colegas de infortúnio: temos de nos render perante tais evidências. Nós não temos, nem nunca vamos ter, unhas para o ultramoderno Rolls-Royce do Senhor Ministro. O que devemos fazer, nesta situação?

Dia 30 negociação suplementar

Espero que tragam alguma coisinha, caso contrário preparem-se para a luta política. O ministro tem ainda em mãos a organização do próximo ano letivo. Como o Paulo escreveu vêm aí tempos difíceis.

Fenprof 15.30

“Numa rápida análise pelas páginas de alguns sindicatos encontrei as horas das suas reuniões da negociação suplementar. As reuniões serão feitas individualmente com cada organização sindical (FNE, SIPE, FENPROF e STOP) e será uma longa maratona negocial para a equipa do Ministério da Educação.” Alberto Veronesi

Provavelmente também reunirão com outros que já têm tão pouca expressão que nem anunciam a chamada à negociação.