Alguém sugeriu que devia estar à porta de todas as direcções (texto Paulo Guinote)

…para começar, para convencer os jovens de que a democracia funciona a partir das escolas, conviria que o funcionamento das escolas não fosse a primeira prova directa de que a democracia é uma ilusão e um simulacro. Paulo Guinote

O ministro das cartas abertas, e vão três

Excelência, Sr. Ministro da Educação, João Costa

Em entrevista ao «Expresso» V. Ex.ª referiu que “Os professores foram formados para dar aulas só a bons alunos. Era como formar médicos para verem só pessoas saudáveis.”

Estas palavras vêm na índole dos seus antecessores que denotaram uma aversão visceral aos professores, com a novidade de esta conter um certo requinte calculista por se imiscuir entre outros dizeres lisonjeiros da sua pessoa para com a classe (da qual, orgulhosamente, faço parte), permitindo-lhe considerandos destes altamente perniciosos e que envergonhariam qualquer profissional, que faço questão de refutar. Uma frase que encerra em si mesma um atestado de incompetência à classe docente, conotando-a de impreparada e, sobretudo, de não estar à altura do que dela se espera.

Sem acrimónia, cabe-me esclarecer V. Ex.ª que, para quem tinha obrigação de saber muito sobre aquilo que se passa nas escolas, parece demonstrar estar muito longe do conhecimento de causa acerca da realidade vigente. Para sua informação, na escola pública, os professores não têm só “bons alunos” como, pelo contrário, recebem igualmente todo o género de estudantes, com diversificada ordem de problemas que a sociedade cria e não resolve. Uma escola com profissionais que se veem obrigados a lidar e a dar resposta a tudo e a todos. Contrariamente ao que afirma, as turmas são de dimensão exagerada, heterogéneas e, grande parte delas, problemáticas, obrigando os professores a trabalhar em sala de aula com diversas realidades em simultâneo e, frequentemente, sem adequadas condições materiais. Alunos de educação inclusiva, com problemas de saúde, de aprendizagem, de comportamento, de integração, de acompanhamento do currículo ou que não se reveem no currículo que é disponibilizado pelo sistema de ensino. Alunos com diferentes ritmos de aprendizagem, com motivações dispares, muitos deles vindos de famílias desestruturadas onde grassa o abandono familiar; crianças órfãs de pais vivos, sem acompanhamento, espancadas ou a presenciarem a violência doméstica, retiradas aos pais para serem afastadas de maus-tratos ou da prostituição (sei do que falo, pois cá em casa houve professora que teve de depor em tribunal para as “salvar”); crianças violadas, outras que percorrem quilómetros a pé entre casa e escola, outras, ainda, a quem temos, além de matar a fome do conhecimento, matar a fome do estômago. Os tais professores que, ao que se subentende, são incompetentes e impreparados, têm de ser professores, pais, companheiros, psicólogos, orientadores, terapeutas, animadores culturais e motivacionais, assistentes sociais e muito mais que não se deveria impor a um professor, mas que a escola de hoje exige e os docentes correspondem o melhor que sabem e podem. Mas, sobretudo, são obrigados a lidar com alunos cada vez mais difíceis devido à enorme falta de regras e de educação que deveria vir de casa, mas que falta por manifesto incumprimento de pais que se têm demitido das suas obrigações por falta de tempo ou por défice de responsabilidade.

Como se não bastasse o supracitado, os docentes ainda são obrigados a lidar com constantes alterações legislativas, algumas das quais contraditórias e de difícil implementação por excessiva burocracia de um sistema educativo que, desde há alguns anos, adotou o «compliquês».

Fica V. Ex.ª ciente de que, no meio de tantas dificuldades com alunos difíceis, encarregados de educação que se demitiram das suas obrigações parentais e de acompanhamento aos seus educandos e que, não raras vezes, empreendem um comportamento agressivo para com o corpo docente, os professores têm feito um trabalho extraordinário para colmatar as falhas que vêm de fora da escola, pelo que, devo dizer-lhe, Sr. ministro, essas suas palavras, além de as considerar um infeliz impropério, vieram aromatizadas de injustiça e ingratidão.

E os professores são obrigados a lidar com crescente indisciplina, ameaças e violência verbal e física por parte de pais e alunos graças a mensagens infelizes como estas e as dos seus antecessores que colocam os professores com uma imagem fragilizada perante a opinião pública e à mercê de pessoas malformadas.

Confesso que gostaria de me ficar por aqui, mas não me é possível embargar a voz perante uma outra sua frase ao «Expresso» onde verbalizou que “Metade dos professores sentem-se irritados”, a qual me parece conter em si uma adjetivação, no mínimo, afrontosa.

A um(a) professor(a) que tem de abandonar a sua casa, marido/esposa e os filhos lavados em lágrimas, sem ter forma de lhes explicar o motivo de ir embora e os deixar ficar para trás e só longe deles possa desaguar em lágrimas a sua tristeza numa longa viagem onde afoga o seu desgosto, vá lá dizer-lhe que aquilo que ele(a) sente é irritação.

Quando um professor tem de despender uma parte substancial do seu vencimento numa segunda renda ou em combustível (ambos cada vez mais caros), sofrendo o degaste de décadas amarrado ao volante para ir para a escola e a assistir ao crescimento dos filhos sem a sua presença, penalizado pela ausência de atualizações salariais, vá dizer-lhe que tudo isso só lhe causa irritação.

Quando um professor, perante o clima de extrema dificuldade e adversidade da profissão, faz um enorme esforço para cumprir com brio as suas obrigações profissionais, trabalhando uma média de 46 horas semanais (segundo estudo efetuado recentemente) e, administrativamente, os governos lhe roubam mais de seis anos e meio de serviço para efeitos de progressão numa carreira já de si com imensos entraves, considera que sentirá uma mera irritação?

Quando, segundo estudos de 2016, 2018 e 2019, mais de 60% do corpo docente estava em burnout ou à beira da exaustão (valor que se deverá ter agravado consideravelmente com a exigência das aulas à distância e a quase ausência de períodos de interrupção letiva e de férias nos dois anos anteriores devido à pandemia), ter de escutar um ministro reduzir toda essa fadiga e desgaste, esforço acrescido e desilusão dos professores à adjetivação “irritação”, será aceitável?

Uma classe com média de idade superior a 50 anos devido a má gestão ministerial e prolongamento exagerado da carreira de uma profissão de desgaste rápido, que implicou a acentuada degradação da saúde de um corpo docente envelhecido que se vai arrastando e sacrificando mais do que pode, não estará um pouco mais do que irritado?

E o que poderá dizer a classe acerca do clima de suspeição que V. Ex.ª levantou publicamente sobre a honestidade dos professores em geral e dos que estão portadores de doenças incapacitantes ou que têm a seu cargo familiares diretos doentes e que se virão obrigados a fazerem-se à estrada, quando relatórios clínicos atestam a sua incapacidade para tal? Sabendo que a sua saúde irá piorar, estarão eles simplesmente irritados?

À esmagadora maioria dos professores entregues a um estado de desânimo e insatisfação, extenuados e doentes, devido à crescente exigência que o ensino impõe a um professor e à parca retribuição verbal e financeira que recebem, diga-lhes que isso não é nada de especial, que apenas estão irritados.

Não foi graças aos professores que temos a mais escolarizada geração de sempre?

Professores que, embora com todas estas dificuldades, não abandonaram os seus alunos e as suas obrigações e têm aguentado os reiterados ataques dos sucessivos Ministros da Educação, deveriam merecer outra consideração e, certamente, melhores ministros; ministros conhecedores da real situação das escolas e aquilo que é efetivamente importante para todos os agentes envolvidos no sistema de ensino, incluindo os mais ignorados, mas fundamentais, os professores.

Na realidade, se o Sr. ministro indicia ter dificuldade em respeitar os profissionais que tutela, como poderão esses profissionais esperar o devido respeito por parte da restante sociedade?

Se nos tempos que correm V. Ex.ª tiver a coragem de, durante um mês, calçar os sapatos de um dos muitos professores que passam por tantas dificuldades, talvez consiga entender o que realmente significa para os professores essa tal “irritação” de que fala, mas, certamente, desconhece.

Atentamente,

um de tantos outros professores supostamente «irritados», Carlos Santos

(Enviado para o gabinete do Ministro da Educação, grupos parlamentares, imprensa falada, multimédia e escrita e sindicatos.)

Carta ao ministro da Educação de Luís Costa – Primeiro Ciclo (wordpress.com)

O carteiro não pára de encher a caixa do João, (blogosfera e polígrafo agitados a desmontar a entrevista do ministo) até os sindicatos pediram uma negociação suplementar, toda esta movimentação merecia um final de ano letivo menos normal…

E por fim a segunda carta de Luís Costa!

DEMITA-SE, SR. MINISTRO!

Senhor Ministro,

Desta vez, não vou tratá-lo por “Excelência”, forma de deferência adotada na última missiva, porque já não tenho por si, enquanto ministro, o mesmo respeito que tinha quando lhe escrevi, há precisamente uma semana. Na sua recente entrevista ao Expresso, o Sr. Ministro desrespeitou, de forma inadmissível, os professores deste país. Não podemos admitir tamanha desconsideração nem tão desrespeitosa desqualificação profissional!

Na citada publicação, o senhor diz que os docentes “foram formados para serem professores de bons alunos. Era como formar médicos para verem só pessoas saudáveis.” Triste analogia! Das duas, uma, Sr. Ministro: ou não tem exata noção do que disse, e isso é extremamente grave em alguém que ocupa esse cargo, ou tem plena consciência do alcance da sua afirmação, e isso é mais grave ainda, porque o coloca no âmbito do dolo. Médicos formados só para “verem” pessoas saudáveis seriam, realmente, muito pouco úteis (para não dizer pior). Professores formados para ensinar apenas bons alunos estariam no mesmo plano.

Mas desenvolvamos a sua comparação: nesta entrevista, o senhor comportou-se como um General que dissesse que as suas tropas tinham sido formadas apenas para tempos de paz. Compreende? Além de insultuosa, essa farpa é tremendamente injusta, Sr. Ministro. Já reparou que é rotundamente desmentido pelos gráficos que as jornalistas Isabel Leiria e Joana Bastos tiveram o cuidado de publicar na coluna situada imediatamente depois daquela em que consta esta sua lamentável afirmação? As taxas de retenção e o abandono escolar estão em queda acentuada há vinte anos. Infelizmente — por razões que o seu partido não quer ver, percebemos porquê — também o número de diplomados em cursos de educação está em queda brutal, em trágica divergência com o número de professores de que o sistema precisará até ao final da década. Mas o senhor não quer ver. Por que razão os nossos alunos não quererão ser professores, Sr. Ministro?

Face a este gravíssimo problema — criado, mantido e ignorado por quem tem estado no Governo, nos últimos 17 anos — o que é que o Sr. Ministro anuncia? Não anuncia que vai retroceder no caminho seguido, dignificar a profissão docente e criar, também assim, melhores condições para o ensino e para a aprendizagem. Do alto do poder e da autoridade que a maioria absoluta lhe confere — acrescentados os muitos quilómetros que diz ter percorrido, de escola em escola — o senhor já decidiu, à semelhança da sua precursora, Maria de Lurdes Rodrigues, apontar o dedo aos professores, colocados assim, uma vez mais, no patíbulo social (tem noção das repercussões desta atitude ministerial no quotidiano escolar, no ambiente pedagógico aí vivido?). Evocar a mobilidade por doença, o destacamento para outra funções (algumas das quais associadas aos muitos projetos inventados pelo anterior Governo) e a formação de professores neste contexto específico é mola suficiente para impulsionar as ilações que se pretende que o povo tire. Uma vez mais, parece que a culpa é dos professores (a culpa de não haver professores também é dos professores). Uma vez mais, temos um ministro suficientemente presunçoso e espantosamente inábil para se julgar mais sabedor do que toda a classe profissional que dirige e para lhe impor restrições (“castigos”) que não merece e caminhos em que ela, definitivamente, não se revê. Como pôde ser tão arrogante, Sr. Ministro, ao ponto de arrasar, de uma assentada, tudo o que os professores têm feito por Portugal, há tantos anos? Formados só para termos bons alunos? De onde vieram os alunos que tivemos até agora, Sr. Ministro, e que soubemos conduzir ao patamar a que o seu Primeiro-ministro chama a “geração mais qualificada de sempre”? É resultado de algum fenómeno migratório ou produto da imigração em massa? Foi só o ensino particular que os formou? Na verdade, a nossa geração mais qualificada de sempre está a fugir deste país, sem oportunidades nem salários dignos, e a dar cartas noutros países frequentemente tidos como referência económica, social e cultural.

Permita-me que lhe diga, Sr. Ministro: o tom da sua entrevista não é o de quem quer criar pontes, sinergias, convergências para resolver problemas, mas o de alguém que, confrontado com o fracasso das medidas impostas à escola, ao longo de mais de uma década e meia, se mostra convencido de que tal só aconteceu devido à incompetência, à falta de profissionalismo ou até à má vontade dos professores; o seu tom, nessa entrevista, não é o de um conciliador, mas o de alguém ressabiado, com tendência para a retaliação. Na verdade, é o que se depreende daquilo que anuncia sobre o atual modelo de concursos, que diz trazer instabilidade às escolas (mas ele foi criado pelo Ministério, há anos, precisamente para o contrário). Destaco algumas afirmações: “Mas o principal foco da nossa atuação é permitir que um professor colocado em Lisboa se vincule em Lisboa e possa reorientar a sua vida para aí” (diz “possa”, mas quer, efetivamente, dizer “deva”); “quando um professor for colocado numa escola saberá que é lá que vai trabalhar para sempre” (prisão perpétua); “É aqui o teu local de trabalho, é aqui que podes organizar a tua vida” (uma vez mais, diz “podes”, mas quer, efetivamente, dizer “deves”). Na verdade, bem lá no fundo, o Sr. Ministro, à semelhança de outrem que o precedeu, também acha que nós, os professores, nos andamos a portar mal, e quer pôr-nos na linha, castigar-nos: amarrar-nos às escolas e, talvez, domesticar-nos ainda mais e silenciar-nos, por essa via. Até pode conseguir, Sr. Ministro, mas vai continuar a ter cada vez menos candidatos ao ensino. E vai ter ainda mais professores doentes (doentes mesmo, não fingidos, como julgam alguns políticos cegos e prepotentes).

Como acima lhe disse, ficam-lhe muito mal as palavras com que ofendeu os professores deste país, aqueles que tanto têm dado a Portugal, muitíssimas vezes com sacrifício da família, do seu tempo pessoal e social. Tivesse o Sr. Ministro dito tal coisa dos médicos e teria já, sobre si, todo o peso da respetiva Ordem. Não se atreveria. Nós, infelizmente, não temos Ordem. Além disso, somos, atualmente, uma classe profissional intimidada, desprotegida, resignada, cansada, “doente”, envelhecida, com baixa autoestima e já com muito pouca força para manifestar a nossa indignação. Talvez por isso o Sr. tenha ousado dizer o que disse. E isso fica-lhe terrivelmente mal. Não peça desculpas, que eu não aceito!

Faça, pois, Sr. Ministro, o obséquio de voltar a ler o título deste texto.