O PROFESSOR DO SÉCULO XXI – Luís Costa

Subitamente, o tema da formação inicial de professores voltou à ordem do dia. Esta nova floração coincidiu com a tomada de posse do Governo, embora não seja claro que possamos estabelecer um nexo de causalidade entre ambos os factos. Com ou sem relação, a verdade é que se volta a pôr em causa a competência dos professores. Desta vez (e já não é a primeira nem a segunda) faz-se crer que o mal está na raiz. E está. Afinal, os professores vêm, há muito, com defeito de fábrica. Decidi, por isso, dar o meu generoso contributo para a melhoria efetiva da formação inicial dos professores do século XXI, apresentando as linhas gerais de um plano curricular capaz de responder às mais rigorosas exigências da escola atual. Todavia, antes de desvelar essa minha proposta, apraz-me tecer dois pequenos considerandos.

Há dias, os jornais e os telejornais desmultiplicaram-se em parangonas sobre o facto de muito poucos professores formadores de professores, no ensino superior, terem experiência de ensino no básico ou no secundário. Não vejo nenhum problema nisso. Quando me formei — licenciatura em ensino — já era assim. Excetuando os professores das ditas cadeiras pedagógicas, não vejo por que motivo os professores de literatura, de linguística, de sintaxe, de fonética, de teoria da literatura teriam de ter essa experiência. Não me digam que, para se darem como exemplo, eles deviam dar-nos as aulas como se nós tivéssemos doze, treze, quinze ou dezasseis anos. Quanto às metodologias de ensino e outras cadeiras afins, já me calo. Mas, pensando bem, até talvez seja melhor assim. Se tivessem experiência de ensino básico e secundário, seria uma experiência nociva, uma vez que seriam todos professores formados para ensinar, habituados a ensinar e até viciados em ensinar. Iriam, de certeza, transmitir essa deformação aos novos professores, contribuindo assim, de forma muito vincada, para a perpetuação dessa anomalia docente, desse completo anacronismo face às prementes demandas do século XXI. Teríamos, durante muito mais tempo, vagas e vagas de professores convencidos de que a sua missão é ensinar. “Vade retro”!

Nas mais modernas e mais sofisticadas “passerelles” pedagógicas — profundamente inspiradas nos ditames dos tempos hodiernos e nas exigências que o futuro já vai revelando aos mais iluminados — desfilam as novas tendências seculares. Ensinar é coisa do passado. Agora o professor já não deve professar coisíssima nenhuma, deve ser um multicompetente facilitador de aprendizagens. Nenhum fato poderia vestir melhor a uma escola de “avant-garde” onde, de facto, o facilitismo é nota cada vez mais dominante, autêntico sangue arterial do sucesso.

Para alcançar tão sublime desiderato, urge fazer uma autêntica revolução curricular nos cursos de formação inicial de professores. O que se segue, é o meu modesto e desinteressado contributo. Podem adotá-lo, que eu não reclamarei “royalties”.

Já não faz muito sentido que o professor seja um especialista. O generalista responderá muito melhor a todas as demandas, quer pedagógicas quer de outra índole. Até admito que possa ter uma formação mais privilegiada numa determinada área do saber (quanto baste), mas é conveniente que saiba um pouco de tudo, que seja multidisciplinar, para também poder suprir eventual carência de professores, para aulas de substituição, ocupação plena dos tempos letivos, etc. Assim, proponho que todos os futuros candidatos a professores tenham um amplo leque de cadeiras semestrais , para adquirirem noções elementares atinentes a outros saberes que não os da sua formação específica: Inglês, Francês, de Geografia, de Ciências Naturais, de Físico-Química, de Matemática, etc. Português não é necessário, porque todos os professores são, em potência, professores de Português. Desta forma, além de facilitador, teremos um corpo docente ainda mais flexível, mais assistente e mais operacional.

Outro anacronismo que tem de ter fim é o da nomenclatura de certas disciplinas. Metodologias do ensino disto e daquilo não fazem sentido, uma vez que ensinar a ensinar já não é o que se pretende. O que se pretende agora é ensinar a facilitar. Assim proponho que as universidades as substituam por metodologias de facilitação de aprendizagens (em Matemática, em Geografia…). Mas há ainda uma vasta panóplia de disciplinas necessárias, e mais do que fundamentais, cruciais, imprescindíveis, para qualquer para qualquer profissional que se queira apresentar como verdadeiro professor do século XXI.

Qualquer curso de formação inicial de futuros generalistas facilitadores de aprendizagens que se preze deve, para além do já mencionado, compor os seus planos curriculares com disciplinas capazes de fornecer formação consistente nas seguintes áreas (algumas já existem): sociologia, psicologia, assistência social, noções elementares de enfermagem, mediação de conflitos, facilitação de aprendizagens à distância, animação cultural, informática, aplicações e plataformas digitais, estatística, estratégias de ocupação dos tempos livres, técnicas de elaboração de cartazes, fotografia (digital, claro!) e ética do assentimento.

E pronto. Aqui estão os meus singelos subsídios para a revolução pedagógica que este primeiro século do terceiro milénio nos impõe. Agora já não podem dizer que a minha pena só redondeia sobre a nívea folha virgem para dizer mal. Ela também serpenteia lindamente na elevadíssima arte de bem-fazer.

2 opiniões sobre “O PROFESSOR DO SÉCULO XXI – Luís Costa”

  1. Ao elevado substrato científico-pedagógico que emana da proposta do Duilio, gostaria de acrescentar, pela sua pertinente actualidade e subido contexto profissionalizante em estreita ligação com o mundo empresarial, a necessidade da obtenção do mestrado em campos de golfe, modalidade em boa hora implementada por algumas daquelas ditas universidades privadas que esperamos seja brevemenete seguida pela oferta pública, a bem da nação.

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